Ah, a adolescência, minha época predileta, nela ainda somos tão inocentes, descobrindo o mundo; como os bebês, a diferença é que os primeiros se surpreendem com o novo e os maiores procuram não só entender e testar o desconhecido, mas principalmente contestar aquilo que vê, pra ter certeza de que é verdade e que os adultos não estão fazendo eles de bobos. Eu tenho uma teoria de que adolescente tem trauma de ser feito de bobo, porque desde criança muitos são enrolados com meias verdades e até mesmo as mentiras mais deslavadas, como por exemplo, isso não é uma cena de sexo, o rapaz está ajudando a mulher que está passando mal, não estamos brigando foi só a panela que escorregou da mão da mamãe e voou na cara do papai, o passarinho não morreu, ele só esta dormindo porque tomou um remedinho, Papai Noel trouxe um presente diferente porque os elfos fizeram greve.
Na escola não é muito diferente, não vou dizer aqui que são ditas mentiras, mas também não vejo muito esforço para a exposição da verdade, e o motivo para isso é que ela dá trabalho.
Dá trabalho explicar, dar exemplo, controlar a bagunça que provoca, qualquer que seja o tema polêmico, sexo, cultura, preconceito, violência, religião ou política.
Será que o tal do bullying estaria na mídia dessa forma se esses assuntos fossem mais bem abordados na escola? É fácil dar nome aos problemas, difícil é encontrar quem queira enfrentá-los.
Na minha adolescência tive o privilégio de ter um professor desse gabarito, ou melhor, um Capitão, o Chiquinho, mestre de História Geral, em um colégio do bairro do Méier/RJ.
Era a versão, com o perdão do trocadilho pré-histórica, desses palestrantes de cursinho que viraram febre na última década, que conseguem atrair milhares de alunos, aula via satélite e todo mundo vidrado na tela absorvendo cada palavra, os olhos brilhando.
Ele tinha quase um orgasmo sobre o tablado quando percebia que seus alunos estavam APRENDENDO e não DECORANDO.
Foi na época dos caras-pintadas, e o professor falava de tudo, passava filmes, o último deles: “Sociedade dos Poetas Mortos”, os alunos emocionados e ele gritando no final: "Carpe diem. Aproveitem o dia! Tornem suas vidas extraordinárias!"
Alguns dias depois, briga com a direção do colégio, ele taxado de ter ideias subversivas, que estava mudando o foco das aulas que eram “somente” de História Geral.
Não queriam nem deixa-lo se despedir da turma, mas ele entrou na sala, e nós os alunos já sabendo da humilhação, da substituição, subimos nas cadeiras e bradamos: - O Captain, my Captain!
Até me arrepio de lembrar, uma emoção só e a certeza nos olhos dele de que valeu a pena.
Infelizmente, ele veio a falecer do coração, alguns dizem que foi do desgosto, eu prefiro pensar que lá em cima estavam precisando de uma alma com ideias subversivas, tipo: amor ao próximo, compaixão, respeito, liberdade, dignidade e por ai vai...
Meninos e Meninas do Brasil, carpe diem!
Nenhum comentário:
Postar um comentário