“Sempre que pensei em escrever, me via dentro daqueles filmes americanos em uma paisagem bucólica numa linda casa de campo, datilografando uma pré-histórica máquina de escrever, apreciando os campos verdejantes através das brancas janelas de madeira, tomando uma xícara de café e tragando um famigerado cigarro, essa parte agora tem que ser re-imaginada porque parei de fumar faz uns seis meses, se não me engano, ate parei de contar.
Parei de fumar por amor a uma criaturinha de quase um metro de altura que sofre de uma baita rinite alérgica.
Nos meus dias mais inspirados pensava em outra paisagem – uma casa na praia, isto porque a praia tem um papel fundamental nos meus pensamentos de escritora bem sucedida, neles estava sempre acompanhada do meu grande amor, sabe aquele que a gente não reconhece que é “o cara”, mas que no decorrer da historia nos damos conta que estamos completamente apaixonados.
Porque grande amor tem que ser assim, sem essa de amor à primeira vista que isso não funciona, você tem que primeiro detestar o sujeito, achar ele brega, cafona, ridículo, pretensioso, apesar de sentir um frisson quando ele te toca em qualquer parte do seu corpo, e pensar confusa o que é isso: tesão? Não!!!, deve ser só asco.
E bem tola fazer questão de falar em alto e bom som para seus amigos, o quê? Eu? A fim Dele? hahaha, faça-me rir!!!!
Pois é, num dos poucos momentos de grande paixão na minha vida essa sensação esteve presente, até a risada mal ensaiada, para enfim a praia figurar no meu cine privé, rolando aquelas cenas de correr na areia, desenhar um coração e escrever os nossos nomes e deixar a onda apagar... E se amar no fim de tarde e rir muito de tudo e de nada.
E depois, quando a euforia passou e chegou a dor, escrever só o nome dele na areia e deixar a onda levar pra ver se apaga da memória, mas não apaga, pelo menos não imediatamente, na verdade quando posso faço isso ate hoje, com o mesmo nome, e ainda lembro e dói.
Lembrar é bom, penso que horrível seria não ter do que se lembrar.
Aliás, será que alguém sabe o momento em que as lembranças passam a não doer? Às vezes é uma dor boa, aquela dor da saudade, tipo chocolate meio amargo, é ruim, mas é bom.
E quando as lembranças trazem aquela dor que corrói, que machuca, será que tem remédio? Aí sim, gosto totalmente amargo, dor sabor egoísmo ou orgulho, ou um mix dos dois.
E to aqui escrevendo, não to numa praia, nem no campo, to no meu modesto apê, com um bebe lá na cama me esperando, minha cria, minha vida.
Fechei meus olhos e vi uma linda casa de campo, folhas brancas sobre a escrivaninha, adoro móveis antigos, decoração é realmente uma arte, mesclar peças anos 30 com o tal minimalismo atual deve ser uma tarefa instigante.
Porque será que não me sinto assim com os rumos da minha própria existência, preservar o velho, o passado, o aprendizado e dar boas vindas ao novo, ao simples, ao natural, ao instintivo.
A casa de campo combina com essa fase? Sim, mas eu não tenho a casa de campo, penso em montá-la com as varias peçinhas de lego espalhadas pela casa, criar meu refúgio, com o mínimo de dor possível.
Vai mulher pula, grita, age, assuma seus sonhos, seus delírios, diz essa voz que fala aqui dentro incessantemente.
Cadê a menina que canta e encanta, parei de fumar será que a voz continua a mesma, mas porque preciso de voz para cantar, eu quero é escrever, a voz sai daqui de dentro, rasga o peito e flui.
Quem sabe se eu criar coragem pra escrever, depois de tudo isso, se eu me livrar dos pesos, das dores, eu passe viver meus dias mais inspirados, andando na praia, e quem sabe, escrevendo um novo nome, cantando e sorrindo, mas bem longe das ondas para que elas não apaguem essas novas lembranças”.
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